O turismo é um dos maiores negócios do mundo. A relação das actividades económicas com o ambiente tem-se processado a um ritmo lento e, por vezes muito contestado, do qual o turismo não foge à regra. Essa contestação torna-se evidente aquando da aplicação fundamentalista do conceito de biodiversidade, onde somente se entende a perspectiva ecológica, esquecendo-se de que para essa biodiversidade resultar o Homem tem um papel importante e integrante.
Em Portugal, um exemplo desse extremismo ecológico é o modelo de gestão implementado nas áreas protegidas. A gestão destes espaços baseia-se somente nos princípios da protecção e conservação da biodiversidade sendo que a valorização dos recursos e a integração das populações que já coabitavam com essa biodiversidade são esquecidos – “olhe, desculpe, eu vivia aqui”.
Apesar desta relação, muitas vezes pouca positiva, nas últimas décadas a natureza/ambiente apresenta-se como um produto importante no sector do turismo. Essa mais-valia é suportada pela oferta que o território apresenta, onde cerca de 80% da biodiversidade da Europa se encontra na Península Ibérica e 25% do território português está classificado em áreas protegidas.
Como tal, à semelhança de todas as actividades económicas, a valia da biodiversidade, tem-se vindo a reflectir no produto turístico como uma das principais ofertas. A Organização Mundial do Turismo (OMT) apresenta o turismo sustentável como “um modelo de desenvolvimento económico concebido para melhorar a qualidade de vida da comunidade receptora, para proporcionar aos visitantes uma experiência de qualidade e, simultaneamente, manter a qualidade do ambiente, algo que tanto a comunidade anfitriã como os visitantes dependem” (Reyes Ávila et al, 2002).
A própria Estratégia Nacional para a Conservação da Natureza e Biodiversidade (ENCNB) aborda o turismo dentro desta perspectiva actual, e inevitável, enquadrando-o como uma opção estratégica.
É neste contexto que se enquadra o Ecoturismo, apresentando-se como uma filosofia sustentada sobre quatros aspectos (figura 1):
- a protecção dos recursos naturais,
- a valorização económica;
- a participação da população local;
- o turismo como uma ferramenta de conservação.

Com a prática do turismo sustentável é possível afirmar: eu vivo (bem) aqui. Mas, como em tudo, também no turismo, Portugal é um país de equívocos. Tardamos em perceber a valia turística da nossa biodiversidade e distorcemos as sinergias entre as actividades económicas e a sustentabilidade. O turismo, é quiçá, o sector onde este erro estratégico se torna mais evidente, já que facilmente se demonstra que a actividade turística sustentável é fundamental para preservar processos ecológicos essenciais, o património humano e a biodiversidade. Também no turismo “riqueza” e biodiversidade são compatíveis, ou antes, só podemos garantir a biodiversidade se esta nos garantir riqueza. Que sector melhor para o fazer que o turismo?
Os bons exemplos, às vezes, estão bem perto. Basta chegar a Grândola, à herdade da Costa Terra. Actualmente são 1350 ha num contexto paisagístico ímpar mas económica e socialmente degradado, que ninguém usufrui porque poucos são os idosos que lá resistem. O projecto turístico em curso prevê, infra-estruturas de excelência, em cerca de 124 ha, e um impar conjunto de equipamentos que podemos designar de grande valia ecológica e ambiental, designadamente:
Centro de Documentação da Natureza;
- Reserva Ornitológica;
- Parque de Flora Mediterrânica;
- Borboletário;
- Quinta Biológica (de apoio directo à restauração no empreendimento);
- Vinha Biológica;
- Adega e Lagar com métodos tradicionais de produção de vinho e azeite em associação com a Herdade e Adega do Mouchão (um dos mais reputados internacionalmente produtores de vinho do Alentejo).
Todas estas intervenções têm em conta a preservação e recuperação do coberto vegetal que, na maioria dos casos, passa pela implantação de habitats autóctones. A erradicação de espécies identificadas como infestantes constitui outra das acções importantes para o aumento da biodiversidade. Por fim, a espécie Homem também foi contemplada, não só no papel de turistas, mas numa perspectiva de economia local, através da criação de 1300 postos de trabalho directos e 3000 indirectos. A conservação da natureza e constituição de riqueza só podem ser a mesma face da moeda; o turismo sustentável é uma excelente via para lá chegar.